25. Análise da biblioteca por Hertzberger
Texto por Amanda e Ana Carolina
Na primeira parte do livro “Lições de Arquitetura”, o arquiteto Herman Hertzberger trabalha com os conceitos de público e privado. Ao contrário de um pensamento mais empírico, o autor afirma que as palavras não são, necessariamente, opostas. A partir do capítulo 2 da parte A, somos introduzidos aos termos semipúblicos e semi privados para referirmos aos espaços. Apesar do arquiteto holandês usar, majoritariamente, exemplos localizados na Europa, nesse texto vamos trazer os conceitos de Hertzberger no contexto brasileiro, mais especificamente para a Escola de Arquitetura e Design (EAD) da UFMG, localizada na região centro-sul de Belo Horizonte.
Em uma visão mais generalista, a faculdade é um espaço público, ou seja, qualquer pessoa pode frequentá-la. Contudo, por um ponto de vista Hetzbergeriano, a escola de arquitetura é um lugar semipúblico. No livro, o arquiteto constata que no mundo inteiro encontramos degradações de demarcações territoriais acompanhadas pela sensação de acesso, em geral esse grau de acesso é quase uma questão exclusivamente de convenção. Na universidade, quanto mais as pessoas que não são alunos ou professores entram no interior do edifício, mais elas sentem que não pertencem ali. Entretanto, as salas de aula são tão públicas quanto o hall de entrada.
Entre as diversas partes da EAD, vale evidenciar a Biblioteca Professor Raffaello Berti, um espaço de muito estudo e concentração. Para iniciarmos a análise da mesma, vale ressaltar que, em uma análise geral, assim como toda a faculdade, a biblioteca também é considerada pública e totalmente acessível para a comunidade geral de Belo Horizonte, mas sua localização no prédio acaba restringindo o acesso para os não estudantes e servidores da UFMG. No livro, Hertzberger cita a importância das gradações de acesso público às diferentes áreas e partes de um edifício para definir a quem se destinam, sendo esse um fato que compromete a publicidade da Biblioteca. Por sua entrada ser no interior da escola, muitos são os que acham que o ambiente não é permitido a eles. Uma mudança necessária se faz em relação a essa entrada; se ela fosse ajustada para perto da portaria da faculdade, haveria uma adesão maior ao uso. Dessa forma, lembramos da importância de criar espaços que sejam igualmente acessíveis para que todos se sintam mais inclinados a expandir sua esfera de influência em direção à área pública.
Entrando na biblioteca, nos deparamos com um diverso plano aberto, apenas com algumas mesas e estantes. Uma das coisas mais importantes num projeto são as dimensões que este deve ter, claro que quanto maior o cômodo, mais funções ele poderá ter. Mas a questão é que nem sempre um cômodo grande é tão aconchegante, e num espaço como a biblioteca, onde as funções estão todas voltadas para o estudo, talvez um cômodo totalmente aberto não seja o mais adequado. Até porque, um espaço articulado consegue criar espaços para que um grupos de diferentes tamanhos os use, fazendo assim com que seu uso possa ser muito mais aproveitado do que somente para o estudo, ou seja, também para discussões, trabalhos, o próprio estudo ou até conversas cotidianas. Assim, a gama de possibilidades é determinada pela densidade de sua estrutura e da articulação dela derivada, coisa que num ambiente totalmente aberto como a biblioteca não consegue fazer.
Pensando na relação entre público e privado explicitada por Herman em seu livro, podemos ver tanto ambas definições no ambiente da biblioteca. Se formos pensar no espaço geral de estudo, temos ai uma grande área pública [figura 1], já que o grau de acesso é enorme, todos podem o utilizar. Mas, ao mesmo tempo, algumas partes da biblioteca podem ser consideradas mais privadas, como por exemplo o lugar onde ficam os funcionários emprestando os livros; a presença de um objeto (cômoda/escrivaninha) [imagem 2] entre estudantes e servidores faz com que o grau de acesso diminua muito e que se faça ai um lugar mais privado. Porém, uma coisa importante a se perceber é que todas as mesas de estudo da biblioteca são para mais de uma pessoa, isso faz com que as pessoas não se sintam tão íntimas e confortáveis no lugar, pois o grau de separação possível no ambiente é muito pequeno, não tem como “ignorar os que estão estão a sua volta”, não há como variar contatos, como Hertzberger tanto disse em seu livro. A solução para isso pode ser, por exemplo, a aquisição de cabines de estudo individuais, que deixarão o ambiente muito mais privado de certa forma. [figura 3]
De fato, na biblioteca também podemos encontrar uma área afastada e separada por uma meia parede. [figura 4] Talvez seja essa a atitude mais reclusa da biblioteca; essa separação define privacidade e aumenta a intimidade de todos com o local. Porém, quando passamos por ela ainda há um espaço de estudo com mesas coletivas, o que nos indica um retrocesso.
Outro ponto a ser levantado é o fato da biblioteca não ser um espaço polivalente. Usada somente como ambiente de estudos silencioso, ela não atende a polivalência explicada por Hertzberger como a prestação de diversos usos sem mudança na edificação. No caso desse espaço da EAD, o excesso de regras faz com que poucas sejam as atividades passíveis de serem feitas lá. É possível ter um grupo de discussão? É possível ter uma roda de contação de histórias? Daria pra fazer uma palestra lá? As respostas para essas perguntas provavelmente são não, o que mostra o quão não polivalente a biblioteca é.
Por último, podemos falar um pouco da forma convidativa. Um pré-requisito para criar uma forma convidativa é a empatia, a qualidade que faz com que a hospitalidade consista em antecipar os desejos dos convidados. Aumentar o potencial de acomodação significa maior adequação ao que se exige da forma, uma forma que seja direcionada para as necessidades das pessoas em diversas situações. A biblioteca novamente não se encaixa nesses moldes, com suas cadeiras duras e ambiente hostil, não há vontade de passar um tempo lá, tanto para o estudo quanto para relaxar, o que faz com que esse não seja um ambiente tão procurado.





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